sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Parece pesadelo

Em tempos de violências simbólicas e reais, e outras inúmeras com siglas infinitas, sobretudo em relação às mulheres, cada iniciativa pode se tornar um ato de rompimento com essa loucura da vida real. Escrever é necessário.

Na última semana, povoou os noticiários o caso do auxiliar de serviços gerais com 17 passagens pela polícia por violência contra mulheres em São Paulo. O episódio tem gerado manifestações as mais diversas nas redes sociais.

Questionam a posição do juiz, que liberou o acusado da ocorrência anterior por acreditar que “não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça”. Solto, o homem cometeu nova agressão. Segue preso, assim como presas estão as dores das das mulheres. Comentários masculinos nas postagens das notícias sobre o caso acaloram as discussões. Mulheres protestam sobre a falta de respeito e segurança. Ninguém se entende e a penúltima vítima se pergunta: “mas meu corto é o que?”.

Tem faltado empatia entre nós, seres. Tem faltado muita coisa.

Quantas violências são necessárias para legitimar a dor de quem sofre? Seja daquele que passou por agressão, seja daquele que se dói por dentro, mesmo “sem” os motivos aparentes por fora. Quantas mortes precisam ocorrer para entendermos a selvageria para a qual estamos caminhando? Quantos mais de nós, nossos conhecidos, nossos desconhecidos, precisam ser violados para nos indignarmos? Quanto mais corrupção precisa existir para usurpar o resto de esperança que escapa? Morremos um pouco a cada dia pela violência que nos chega, porque ela sempre nos alcança.

Dá vontade, às vezes, de resetar o mundo, o jogo, nós bonecos. Por que é cansativo valer-se da dose diária de fôlego para chegar ao fim do dia em pé. É exaustivo usar as inúmeras vidas acumuladas para resistir, como nas lutas dos joguetes virtuais onde se ganha pontos por eliminar os outros.

É fatigante explicar que em nosso corpo não há direito de terceiros – SIMPLESMENTE NÃO HÁ – que o outro não pode tirar a vida de alguém – NÃO, NÃO PODE – que a dor pede escuta – ME OUVE – que a miséria exaspera e não é uma condição humana – NUNCA SERÁ.

Nessa matriz congestionada de violência, parecemos seres de ficção, acoplados a tubos de oxigênio invocados a cada falta de ar, nas cenas absurdas de involução humana. Parece que o pouco que fazemos não é mais o suficiente e que são precisos os tais super heróis para resolverem esse efeito dominó em que nos metemos.

Parece que é sonho. Mais da metade pesadelo, daqueles que a gente grita e a voz não sai, que a gente corre e não se move do lugar, quando de repente somos pegos desprevenidos, nus, e todos riem de nós.

Vergonha alheia, vergonha minha, vergonha de quem tem vergonha na cara em olhar para esse mundo de ponta cabeça. Injúria! Perjúrio? Queria eu. Parece mesmo pesadelo.

Queria um texto de alegria, de esperança. Por agora sai um texto triste, de respiro à procura de sobreviver a nós, mundo.

A cada amanhecer, levanto me dizendo que dias melhores virão. Parece sonho, metade ainda pesadelo, metade espera.


Texto originalmente escrito para a coluna quinzenal do Blog Repórter Entre Linhas.


domingo, 20 de agosto de 2017

O tempo presente


Há dias em que conseguimos pegar o tempo com a mão. Como se tivesse corpo, ele nos enxerga. Essa comunhão traz calmaria nas águas de dentro, mesmo quando as tempestades transbordam. Mas para merecer esse encontro é necessário um atravessar - de dores, desculpas e planos. O tempo corre a nossa revelia.

É um sujeito indomável esse tempo que não se permite encapsular. Ora corremos em busca dele, ora contra, ora a favor dele. Quando o encontramos, o perdemos, aí lamentamos e recomeça a corrida maluca de encaixar as horas nos afazeres. Tudo de novo, sem ser nada novo, novamente. É um disparate essa moeda da existência. O tempo, a justa medida da vida que levamos.

Em algumas pessoas, no entanto, podemos reparar o tempo que parou. Nas memórias, virou fotografia da mente. As palavras não alcançam o hoje, ficaram lá nas brincadeiras de infância, ou nas recordações da juventude. O relógio da parede congelou sem avisar. Seguem jurando que no dia seguinte acertam os ponteiros, compram pilhas novas. Mas o que era movimento tornou-se quadro, denunciando a falta de sincronia.

Outros, por sua medida, estão sempre a projetar – trabalho, bens, família, viagens – desenhando a vida que se firma em uma estrutura própria, muitas vezes avessa ao esboço original. Mentes à frente do tempo, senhoras do futuro que se esqueceram de levar consigo o corpo e a alma. Todos os dias, transformam-se em três à procura de reunirem-se.

Confesso que já permaneci um bom período no tempo passado. Agora, tenho me percebido no tempo futuro, com essa mente que elabora e prega peças. Um anacronismo que leva à exaustão, já que não há de fato domínio sobre a vida, nem tampouco haverá.

Imagino o quanto de vida perdemos por não desfrutarmos o presente.

Meditar tem sido para mim um caminho para alcançar esse tempo presente. Surgiu como tentativa e há um mês tenho conseguido manter a prática diária. Começo a sentir os benefícios. A regularidade tem me permitido olhar para o tempo do lado de fora. Às vezes, vejo os segundos correrem sem régua. E há dias em que eles não saem do lugar. Fico curiosa como o mesmo tempo se mostra em perspectivas tão distintas. É como se o sol fosse poente, a cada dia, em uma janela de casa, convidando para uma nova vista.

Um dos grandes desafios desse tempo por dentro tem sido manter a mente junto ao corpo e ao lado da alma. As ideias do que pode vir a ser tornam-se uma poderosa dispersão. É o tempo do abstrato querendo se impor. É a ilusão de querermos ditar o fluxo e estabelecer metas que nem sempre nos levam ao melhor caminho.

A meditação, ou mesmo aqueles simples momentos que reservamos para sentir tudo o que acomodamos – pensamentos, emoções, sonhos e frustrações – é uma fonte de energia transformadora. Primeiro requer persistência (assim como a vida), depois mudança de hábitos com uma boa dose de resiliência, em seguida (mas não por fim) uma atitude de entrega e confiança – na vida, em si mesmo, no fluxo.

Manter-se no tempo presente é uma atitude contínua de aprendizado. O tempo é rei e é presente. Faz a gente alinhar corpo, mente e alma e acaba por trazer mais sossego ao coração. É quando a gente não tenta mais se impor ao tempo, porque ele sempre vai ser melhor que nossos ponteiros acertados.

Texto originalmente escrito para minha coluna quinzenal no blog Repórter Entre Linhas.





quarta-feira, 5 de julho de 2017

Como amar?


Poderia falar sobre escrever cartas apaixonadas, poemas, mensagens, ou sobre o medo de se declarar para a outra pessoa. Quem sabe seja melhor recuar, já que pode não haver correspondência do outro lado. Não. Talvez valha a pena arriscar, a espera dói mais do que permanecer na dúvida. De repente, tudo vai ficando em segundo plano, enquanto ouço um refrão na timeline do facebook. “Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”.

Eu, que só conhecia Johnny Hooker de nome, fiquei absorta em “Flutua”. A música foi apresentada durante o programa de entrevistas do jornalista Pedro Bial. Flutuei em pensamentos. Ouvi duas, três, quatro vezes. Ouvirei mais. A melodia lembra estranhamente tempos que não vivi, sentimentos de uma revolução, toques de nostalgia. Entre as belas frases, importa tanto o fato de “ninguém vai poder querer nos dizer como amar”.

Eu não sei o que é certo para você, o que te faz feliz, tampouco você sabe sobre mim. Mas por que insistimos em conselhos que não foram pedidos? Quantas vezes ao dia, poderíamos recolher nossa fala, nosso “eu acho”, “você deveria”, “ele tem que”, e permitir a curiosidade de assistir ao capítulo seguinte de uma vida sem roteiros. “Meu amor, seja feliz”, como dizem muitos vídeos por aí. Seja feliz, que o outro também será, tateando os caminhos dele.

Ouvindo “Flutua”, algumas cenas acabam surgindo na mente. Vejo pessoas gritando sobre o que é certo, errado, esperado, adequado, ado, ado, ado. Observo dedos de desconhecidos apontando “verdades” entre si. É uma passeata? Um protesto? Não sei ao certo, mas parecem imagens cotidianas das vidas cruzadas. A razão parece virar abelha, ora zunindo no ouvido de um, ora no ouvido de outro. Na algazarra, todos querendo ter razão, dizer como amar, mas amar da maneira “certa”, porque deve existir “a fórmula do amor”, como queria Léo Jaime.

Mas “Um novo tempo há de vencer para que a gente possa florescer, e a gente possa amar sem temer.”, alerta Hooker. Que novo tempo é esse? Eu me questiono. Parece algo ainda tão distante, quando nos perdermos em traçar uma linha reta para a vida do outro, embora a nossa seja cheia de abismos e colinas. Quando o amor, algo tão genuíno e transformador, murcha em formas de papel untadas com sangue e óleo. Amar sem temer ainda flutua, às vezes, não raro, evapora.

Por que nos incomodamos tanto com a parede do vizinho, seus brindes e dedicatórias, se podemos ser felizes com a diversidade de uma pontuação sem vírgulas? Algo estremece por dentro quando vejo o outro esbravejar certezas de Deus. Um Deus que não é meu, não é seu, é de todos. Eu permaneço sem entender o mal que há em ver o outro ser feliz, amar do próprio jeito.

Um novo tempo há de vencer, Hooker. Creio que sim. Quando? Espero que não demore. Há pressa em ser feliz. Há urgência em amar. Precisamos. O mundo pede. Os seres, também.

Por hoje, fico o tempo do meu dia pensando sobre minha forma de amar sem medo, desajeitada. Às vezes, esqueço o quanto o outro está ali por escolha e o quanto não sou imortal, apesar de o amor ainda ser.


Texto escrito para a coluna quinzenal do blog Repórter Entre Linhas.

sábado, 20 de maio de 2017

Indo além da dualidade



Nascemos da unidade - o amor - e caímos na dualidade na nossa primeira grande mudança – o nascimento. O embate entre vida e morte assim que viemos ao mundo cria nossa primeira cisão, o momento decisivo pela vida. O sentimento de completude que vivíamos no útero não mais se reproduz. Lá dentro tudo era protegido, seguro, estávamos numa redoma, apesar de já captarmos o ambiente ao redor. Na vida, buscamos repetir essa perfeição.

Aqui fora, encontramos um mundo polarizado. Nossas percepções, principalmente com a crise que atravessamos, têm nos levado à dualidade. Hoje é tudo ou nada, bom ou ruim, certo ou errado, verdade ou mentira, culpado ou inocente, mocinho ou bandido. Temos nos distanciado do caminho do meio e da perspectiva de que estamos todos juntos no mesmo barco.

Os julgamentos vão fazendo parte inerente da nossa rotina, acompanhados de sensações de perda ou ganho. No automático classificamos situações, pessoas e objetos com rótulos definitivos que nos aproximam ou afastam. Aqui fora a visão parece estar turva, nossa temperança também.

Os ânimos aflorados nos levam a condenações sumárias e separações. Como ascender em meio a tantas decepções? Como nos acalmar por dentro se por fora está um caos? Como ir além da dualidade?

Essa semana, ouvi uma palestra com o jornalista André Trigueiro, na qual ele falava sobre transição planetária, momento que a Terra e nós humanos estamos atravessando para separar o joio do trigo nesta crise ética, moral e de relacionamentos. Uma crise sistêmica, global. Segundo ele, é como se tomássemos um vermífugo forte, amargo, mas que vai nos curar. Trigueiro destaca que durante essa transição é preciso persistir no caminho do bem, renovar todos os dias a nossa fé, selecionando o que vemos, ouvimos, comemos, e também as pessoas com quem queremos estar.

Talvez não estejamos mais aqui para ver a solução, diz o jornalista, pode demorar muito, embora já esteja acontecendo. Mas vale fazer a parte que nos cabe no tempo que dispomos na terra. “A vida é movimento, ação incessante o tempo todo. A hora é de assumir quem você é no tabuleiro e verificar se onde você está está bom. Se não, ainda dá tempo de movimentar sua peça no jogo.”, adverte.

As palavras de Trigueiro me levaram até minha Avó materna, base da minha educação. Ela me ensinou, na sua simplicidade e olhar firme, lições básicas que me acompanham ao longo das escolhas diárias. Conselhos nem sempre verbalizados, mas observados por mim como algo natural do ser humano. “O que não for seu, devolva”; “o que dever, pague”, “respeite os mais velhos”, “não dê cabimento a fofoca”, “isso não está certo minha filha”, “fale a verdade”, “não importa o que o outro fez, eu quero saber é de você, diga”.

Sabedoria de Vó parece milagre, acalma o coração dividido. Traz aquele sentimento de estar dentro do útero, protegida por mãos idosas e justas. Quando criança, se eu pensava em dar um jeitinho em alguma situação, vinha logo a voz na minha cabeça alertando - “minha Vó disse para não fazer isso”; “minha Vó disse que isso era errado”. Deve ser coisa de criança, mas ainda tenho esses pensamentos quando vejo os noticiários, quando observo o trânsito, quando quero dar desculpas para me enganar.

Às vezes eu penso que essa bagunça toda aqui fora do útero não tem mais jeito, é perda, traição, fim. Mas escuto André Trigueiro e ganho esperança. É perdão e recomeço. Oscilo mais um pouco vendo as notícias em todos os veículos falando sobre mentira, propina e um monte de palavrão. É tristeza e nervosismo.

Os movimentos pendulares cansam. Parece que estamos sempre arrumando uma bagunça, lembrando-se do básico da vida - ser inteiro e amoroso.

Volto à infância, para a rede embalada pela Vó. O coração tranquiliza, me vejo amassando seu cotovelo (mania de criança), alisando o braço dela geladinho e a escuto dizer “tenha paciência minha filha”.

Texto originalmente escrito para minha coluna quinzenal no Blog Repórter Entre Linhas. 


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Fotografias

Fui procurar umas fotos da infância para homenagem ao Dia das Mães e encontro várias fases da vida estampada em cor. Percebo que só tenho um álbum de criança com uma fotinha do batizado com meus avós, três de um aniversário no qual adorava a mesa decorada com guloseimas e duas de meus pais juntos me segurando no colo (raridade para se guardar no cofre). Mais umas quatro de quando bebê, as quais estranhamente parecem não ser eu.

Fotografias são as memórias do peito guardadas no papel. Quando a gente se vê refletido é um disparate. Voltam no tempo os sentimentos da época, nosso modelito desatualizado, o corte de cabelo rebelde, os programas com amigos, algumas dores e amores. Volta a fita dos problemas tão grandes vividos ali (com a nossa dimensão juvenil) e as inúmeras preocupações de uma vida adolescente.

Fico curiosa para saber quais os pensamentos naquele exato momento da foto. O que sentiam todos os registrados, o que tentavam conquistar e o que esperavam da vida. Como um corte no tempo, a gente vira mosca e relembra as cenas, imagina os porquês e se perde em devaneios.

Além da nostalgia das fotos antigas, em geral se tem a ideia de que estamos melhores, mais maduros, mais bonitos, mais vividos. Dá certo conforto sentir que a vida anda para frente, mesmo nos momentos em que teimamos usar a marcha a ré. Evoluímos todos, somente a estátua é que se deteriora.  E não temos essa vocação, porque nascemos do movimento e seguimos assim, embora os ponteiros às vezes pareçam enferrujar.

As fotos de antigamente trazem o ineditismo, outros ângulos, espontaneidade e sorriso mais livre de quando só tínhamos direito a algumas poses. Registravam as emoções, mais do que pessoas olhando para a câmera. Não era preciso perfeição nem o melhor perfil. O sentimento estava nos dois lados.

Eram momentos genuínos da festa de criança, com lembrancinhas nos copos plásticos que viravam coelhos, cestinhas e o que mais a habilidade da nossa mãe permitisse. Era uma mão não se sabe de quem cortando a foto. E seres desconhecidos. “Sabe quem é esse aqui? Não, e você? Também não. Deve ser fulano. Não, é sicrano. Ah sim, é o filho da comadre Chica!”

Na foto, aquela mãe também não é a mesma de hoje. O sorriso e olhar ingênuos completavam a calça boca de sino, os móveis dos anos 1970 e o calendário na parede. Os sonhos de ontem são tão diferentes dos de hoje. Assim também a criança de vestidinho bordado, casinha de abelha, agora em outras vestes.

Do álbum de infância para 2017 correu um rio, vazou um mar. Hoje são outros doces, novas alegrias e mais desafios. A mãe foi, a Vó também. A mãe voltou, como nos laços de presentes que refazemos par ficar mais enfeitado. Essa história de olhar álbuns dá nisso, a gente se revisita e se reinventa.



sexta-feira, 5 de maio de 2017

Uma Fala Carpinejar


Uma noite refrescante. Ouvir o escritor gaúcho, Fabricio Carpinejar, conversar sobre como ser “feliz por pouco e transbordando por muito, como ser feliz criativamente”, nos lembra do tempo para o afeto, do abraço sentido, do contato honesto com o outro.

Carpinejar, que uniu os sobrenomes da mãe (Carpi) e do pai (Nejar) para se fazer inteiro, para aproximar os pais em seu imaginário afetivo, diz que só foi ser poeta para buscar o pai. “A poesia é uma longa carta que eu escrevi para ele”.

Ele bem alerta, “a gente só se resolve quando fica em paz com os pais”. O escritor das palavras descreve os impasses do coração e adverte que o grande problema da felicidade é que a gente sempre acha que o outro pode ser melhor do que ele realmente é. “A gente cobra do outro uma perfeição”, quando nós mesmos estamos longe disso.

A felicidade passa, portanto, pela paz com o passado, com nossas raízes, nossa história. Se olharmos bem, dá até para perceber pedacinhos de nós fincados no corpo dos sete anos, no muro da nossa casa da adolescência, nas conversas das madrugadas com amigos, nas memórias com o “ex”. Ficamos por lá?

Para ser feliz criativamente, anuncia o poeta, é preciso sair de si, do egocentrismo e observar o outro. Alimentar a curiosidade e se reinventar a cada dia em novas linguagens.

Em tempos virtuais, Carpinejar contesta a criatividade desperdiçada ao se odiar tanto o outro, “criamos todo tipo de insulto, mas no elogiar somos reticentes. Para destruir alguém usamos todas nossas reservas ideológicas”. Porém, nossa real dificuldade está em encarar os próprios defeitos, na tentativa de esconder nosso monstro interior.

“O quanto nós fazemos no dia somente para provocar?”, questiona. E o pensamento vaga por aquelas pequenas discordâncias diárias, que nem sempre deixamos passar pela irresistível vontade de ter razão, em tudo. Mas a felicidade não mora na razão. E sabiamente o poeta recorda, “com o tempo eu percebi o que é ter razão se tu pode ter amor.”

O homem que escreve para destruir janelas, de fala emotiva, ora aos gritos, ora baixinho, comove. Sensibiliza pelas frases simples, qual conselho de amigos, mas firmes como os relâmpagos rasgando o céu. Ele nos convida a falar com o coração, pois sinceridade não é reproduzir o que vem à cabeça, mas conciliar os dois tempos – o da fala e o do coração – porque o outro pode não estar preparado para ouvir o que você tem a dizer.

A fala Carpinejar nos leva a parar, a sentir, a recuperar a felicidade pelas coisas simples, a não dar nada por garantido, mas a aproveitar o tempo presente para dizer o quanto amamos. “Porque o mais difícil na vida não é se reinventar, é se assumir.”


Texto originalmente escrito para minha coluna quinzenal no blog Repórter Entre Linhas. 

Eu te Abraço


Amiga-irmã, hoje sou eu quem seguro a tua mão, na mudança de papeis que a vida nos encoraja a experimentar, sem ensaios. Lembro-me de quando, há dez anos, você fazia o mesmo por mim, enquanto eu me despedaçava por dentro ao ver minha amada Vó partindo. Hoje é você quem se despede do seu amado Pai, hoje nos tornamos mais cúmplices. Eu te sinto e te entendo. Eu te abraço como as almas que se aproximam sem nada dizer.

Fico emocionada ao saber que, assim como eu, embora para poucos, você tenha tido a oportunidade de estar ao lado dele, segurando a mão nos suspiros finais, na "hora sagrada" como você mesma nomeou, que é o momento da travessia. Você pode sentir o silêncio, o tempo parar, enquanto os anjos diziam amém e levavam seu Pai nos braços encantados da luz.

É revelador e há uma beleza na hora derradeira. Para quem tem a oportunidade de vivenciar essa passagem, ficará para sempre como um momento mágico, apesar de toda dor, mesmo com tanta saudade. Haverá gratidão pelo tempo dado, pelo tempo vivido, pelo que pode ser. Todos deveriam ter esse direito, ter a benção de viver o instante final ao lado dos queridos, de poder dizer com tanto amor: "siga em paz".

Com a partida do seu Pai, revivi os meus adeus, os concretos e os imaginários, e pude perceber os adeus simbólicos nos olhos dos outros, refletindo as próprias despedidas, muitas ainda não realizadas. A sua dor nos perpassa e nos soma à dor global da separação, que nos torna tão humanos, tão finitos em corpo de gente.

Caminhando ao seu lado, abraçando seu corpo tão fragilizado naquele momento ritualístico, sinto sua emoção e me torno una com seu movimento, torcendo para que você atravesse sem tanto pesar. Queria poder tirar alguma carga dos seus ombros. Queria, tentei.

Fico angustiada pela hora do “baixar o caixão”, aquela etapa em que nosso corpo vacila com o derradeiro adeus à materialidade. Depois, só lembranças. Boas lembranças, decerto. Porque o amor suplanta as tribulações dos momentos finais e parece resumir os desafios naquele grande sentimento inenarrável que liga as almas em essência. O Amor.

Nas últimas flores brancas jogadas, pude notar como caíam sobre o homem que cobria de cimento o espaço retangular. Uma chuva de pétalas, de votos lançados por sobre o outro, que ali estava junto ao teu, para guardar, para eternizar. Não sei quantas flores o homem de verde recebeu naquele dia. Sei que aquelas das 14h30 tinham o orvalho do dever cumprido, do "jamais retroceda", do "seja bem sucedida", como seu amado costumava profetizar.

Voltar para casa é duro, eu sei. Encarar o vazio das horas miúdas, do quarto que exala um cheiro de saudade. Não há atalho para atravessar este mar. Queria te levar comigo para passear, para ver a vida que chama lá fora, agora que é livre para novas escolhas.

A coruja pintada em teu corpo deve te guiar nessa jornada de aventuras, que com certeza te espera nesse recomeço. Que as borboletas soprem no teu estômago, lembrando de que sempre é tempo de "sol-te", como está escrito em teu braço. Solte o que já não te serve mais e sejas feliz!

Que o dente de leão sopre tua sorte para campos infinitos de descobertas gentis, aquelas possíveis nas almas de criança. Eu te abraço e digo que estou aqui, porque é isso que os amigos fazem. A cada crescer de asas, permanecem.

Texto originalmente escrito para o blog da professora Dalu Menezes.