segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Há o tempo de deixar acontecer

Esperar por algo que se anseia muito requer uma revolução interna. Pode ser enlouquecedor. Normalmente, quando percebemos que àquela altura devemos nos tornar espectadores, já demos com boas cabeçadas na trave e só a gente ainda não entendeu.

Pode ser uma notícia, um encontro, um projeto, um sim, um não. A questão é que, quando se quer muito que aquilo aconteça, dá vontade de agir até o ultimo minuto para garantir o resultado certo. Afinal, é melhor zelar por excesso do que por omissão, não é o que dizem?! Mal sabemos que o portão se fecha antes de nossa contagem própria. A chave gira sem que percebamos. É o mistério das horas mágicas.

Há uma beleza na espera. Uma quietude que desperta movimentos internos. Contemplação, presença, compaixão e, principalmente, paciência consigo mesmo. Uma postura desafiadora, quando tentamos ser nossa melhor versão, na busca frenética por eficiência.

Mas existe o tempo de deixar acontecer, de relaxamento e de doçura. É o que o terapeuta americano, Bob Mandel, chama de “deixar ir, deixar Deus agir”. Os momentos em que precisamos recuar, onde não cabe mais força para conseguir algum efeito e sim deixar o tempo trabalhar por você, considerando o caminho percorrido e as decisões tomadas.

Aguardar é um estado de rendição total, de entrega e sapiência. Faz a gente parecer que desistiu, pode se assemelhar à derrota, mas é um estado de corpo que vai aquietando tudo por dentro, até acalmar o coração. É quando surge a voz interna dizendo: “Já deu. Para agora”.

Entender quando é preciso estacionar é uma dose de ousadia, risco e coragem. A gente fica no fio da navalha, equilibrando a bandeja de copos até a linha de chegada, que sempre muda. Há dias que parece mais distante. Em outros, estamos a um passo de cruzar a reta final. Uma percepção diária.

Deixar Deus agir (ou o que quer venha a ser essa força de existência) é um tempo de fé. Aceitar que só há espaço para a temperança pode se transformar em uma imensa batalha interna. Porque, em geral, ao redor, tudo pede movimento, atitude, ação. E de repente, cessar parece covardia.

Deixar Deus agir é uma tremenda confiança que nada mais pode ser feito por você enquanto a vida não traz de volta a colheita, seja ela de bonança ou tempestade. É a hora da resiliência e da acolhida.

E a vida traz, sempre traz o que nos é necessário. Nem sempre ao nosso desejo. Não exatamente o que esperamos. Às vezes, bem melhor. Porém, sempre na medida em que precisamos.

É uma regulagem sensível essa de calibrar o tal limite entre espera e ação. É como descobrir o segredo de um cofre valioso, que exige tempo, observação, tentativa até ouvir o clique final, aquele que revela o tesouro guardado.

Quando a gente age com essa sensibilidade, acessamos o que há lá dentro, no cofre pessoal, o que só foi possível por estarmos inteiros naquilo que fazemos.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Procure sua turma


“Vá procurar sua turma”, se antes era um desaforo, virou um bom conselho nos dias atuais. Quem nunca esteve em um grupo no qual os trabalhos pararam de progredir? Ou entre pessoas com as quais não mais se identifica?

Falar a mesma língua, ter sintonia de pensamento, sentir o propósito alinhado é o que buscam cada vez mais as pessoas que querem ter prosperidade na vida. Mas acima de tudo, é o que buscam aqueles que querem sentido para o que fazem, seja no lado profissional ou no pessoal.

“Procurar a sua turma” faz com que as sincronicidades aconteçam. De repente, começam a chegar sinais de que estamos no caminho certo. Caem no colo informações conectadas com novos projetos e, como mágica, tudo ao redor parece avançar na incrível coincidência.

Quando estamos “enturmados”, deixamos de fazer aquele esforço enorme (às vezes imperceptível) para transmitir ideias e nos fazer entender. A comunicação ocorre mais fácil, fluida e complementar. Parece até telepatia. Sabe quando alguém ia dizer justamente o que você estava pensando? Fulano completa a frase que você começou... Sicrano fala de um assunto que você tinha lido horas antes...

As peças de um grande quebra cabeça parecem se juntar com rapidez e a gente acha tudo insano, fica abismado. O todo vai ganhando corpo até melhor do que o imaginado, e constatamos: Uau! Aonde isso vai levar?! Dá medo? Talvez. Mas, essencialmente, admiração.

A questão é que “procurar a sua turma”, às vezes, leva a desapegos de uma outra turma que, até dia desses, fazia o maior sentido para nós. Só que hoje não faz mais e isso traz insegurança. Pode despertar tristeza e até um sentimento de culpa. Poxa, éramos tão unidos! Funcionava tão bem! Só que quando a gente se depara em um novo lugar que conecta mais forte, a sensação de incompreensão desaparece.

Se nos permitirmos abrir esta nova porta, pode ser surpreendente. O remar contra a maré vai virando coisa do passado e toda a energia agora parece canalizada de forma mais proveitosa. Ufa, um alívio! É quando percebemos os dias a pleno vapor. Renovam-se o fôlego e a vontade de desbravar o novo, mesmo que pareça assustador.

No entanto, agora não estamos sós, mas acompanhados da nova turma, essa outra que se juntou sem planos aparentes. Antes parecia que não estávamos sozinhos. Apenas parecia. Com o esvaziamento do propósito, a turma passada já foi pulando do barco sem a gente perceber. Ou até nós mesmos podemos ter entregue os pontos antes do fim, sem nos dar conta. Não há culpados. Há transparência e confiança, e quando é menos do que isso, não vale mais a pena. A gente estava à deriva e não sabia. Só sentíamos aquele tremendo esforço para realizar qualquer mínima ação, com resultados frustrantes.

Bom seria se, chegada a hora da mudança, surgisse um aviso nos alertando para outra direção. Mas não funciona assim. Em geral, a gente pena e insiste um bocado em conservar o conhecido, em vez de dar adeus e agradecer o que passou.

Penso que na vida, de tempos em tempos, ajustamos o rumo do barco. É quando a tripulação dá uma boa variada e a turma muda. A gente parte para uma nova viagem, sem rota definida, confiando que os ventos sopram na direção que o novo grupo se engajou.

A cada parada pode ser que suba mais alguém. Aqui e ali aparecem mais talentos. Avistamos uma terra distante, às vezes miragem. Pode ser também que não haja mais terra, e agora? A gente também não sabe. Há que se ir aprumando a embarcação. O porto final permanece uma incógnita, mas a turma está lá para descobrirmos juntos.


Enquanto isso, a gente iça as velas, gira o leme e muda de capitão sempre que alguém apontar o caminho com mais lucidez. Nesse novo barco não há mapas, os caminhos são desenhados em colaboração. Mas existe sim uma turma cheia de entusiasmo para navegar em uma vida com mais propósito.

Texto originalmente escrito para a coluna quinzenal no Blog Repórter Entre Linhas .

domingo, 5 de novembro de 2017

Entre sonhos e humanidades


Acho tão bonito isso de ter sonho. Dá uma coragem danada de viver mais e arriscar. Enche a alma de possibilidades. Sai uma força gigantesca de dentro do peito gritando que a gente pode e merece ser feliz. Sonho é magia.

Gosto de pensar nos sonhos que alimentamos, que um belo dia viram presente quando antes só eram possíveis no coração. Digo isso, porque costumo, de forma inconsciente, naturalizar as vitórias como algo simples, sem esforço, “mais do que a obrigação”. Sintoma de pessoa autoexigente. Para me tratar, tenho procurado internalizar o percurso das conquistas, o tempo maturado, a energia desprendida e as ações. As pequenas, as grandes, as improváveis, as banais.

Comecei, então, a registar sonhos e conquistas em um "caderninho de vitórias", como apelidam por aí. Percebi que se anotamos as superações diárias vira uma lista de ruma. Pode ser algo diferente que ousamos certo dia, coisas simples como falar com estranhos, chegar a um lugar desacompanhado, ir ao cinema sozinho ou fazer o que estava na lista de “para quando tiver tempo”. Atos bobos para uns e um passo enorme para alguém. Desejos tão pessoais e legítimos.

Vejo que esse processo acaba por assinalar também nossa trajetória. Abraça os altos e baixos como natural da caminhada. Mostra que aquele dia “não tão bom” não se torna uma mancha na fotografia. Compilar as vitórias, ajuda a lembrar que, se hoje estamos aqui, foi porque antes estivemos mais atrás, e antes de nós outras pessoas, e outras gerações, numa longa cadeia de sonhos, acertos, atropelos. E é tudo tão incrível, porque só o fato de resistirmos, sonharmos, é fantástico. Olhar nossa história com generosidade e acolhimento é energizante.

Outro dia conversei com uma pessoa que me falou muito sobre o quanto cada pessoa tem um percurso particular, desenvolvendo uma percepção distinta sobre a vida. E sobre como viver é relacionar-se o tempo todo. Daí a importância de ser gente, de cultivar a humanidade.

Após quase uma hora de conversa, saí embevecida. O corpo adormecido, enquanto a cabeça processava as reflexões. É sempre interessante ouvir os próprios valores pelo discurso do outro. É um tônico. E prontamente me ocorreu um insight sobre momentos de dúvida, seja na vida pessoal ou profissional. Veio o entendimento de sempre optar pela humanidade, porque no fundo é a nossa razão de existir. 

Naquela tarde, eu estava cheia de trabalho, prazos a cumprir e uma amiga recém-operada por visitar. Eu já tinha concluído que não haveria tempo para ir ao hospital, nem espaço para comportar todos os objetivos do dia. Depois da conversa, no entanto, fiquei sentindo a melhor decisão. Lembrei-me sobre ser gente e optei pela humanidade de abrir o tempo com a mão. Fui ver a amiga.

Já em casa, à noite, “optar pela humanidade” foi para meu “caderninho de vitórias”. Mais uma conquista a celebrar, junto com os sonhos, os pequenos êxitos e as coisas sensíveis. Comemorei a vitória em ser gente, por mais um dia.

O caderninho tem mais inúmeras páginas em branco para anotar, quantas vezes necessárias, essa opção pela humanidade. Uma conquista que não reclama de repetição.

Texto originalmente escrito para a coluna quinzenal no blog Repórter Entre Linhas.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Vida é colaboração


Um assunto tem me ocupado a cabeça e o coração na última semana – a valorização do trabalho das pessoas. Vivemos em conexão e alguns seres ainda não despertaram para esse fato. Reconhecer a contribuição do outro faz parte da vida em grupo, que ainda é experimentada dia a dia, entre conhecidos e desconhecidos.

Em um mundo cada vez mais colaborativo, legitimar o trabalho do próximo é condição essencial para avançar. Não, não estamos sós, não realizamos as atividades sozinhos, não construímos o resultado fechado na nossa super cápsula protetora. A vida em rede é muito mais do que a nossa imagem no espelho. É interdependência.

Desconsiderar a história das outras pessoas ou menosprezar o resultado construído no coletivo pode ser uma falha de caráter. Talvez haja conserto no futuro próximo, mas, por hora, todas as vezes que não validamos o esforço de alguém, deixamos o mundo mais pobre.

Não, não somos uma ilha onde tudo gira ao nosso redor. Assim como também não é sábio viver querendo tirar vantagem a qualquer custo – das coisas, situações e pessoas. O dicionário diz ser vantagem a “qualidade do que está adiante ou superior = SUPERIORIDADE”. O significado pode estar certo no mundo alheio, mas não no meu. Não quero essa visão que tira proveito sem que o próximo também se beneficie. Dicionário, eu e você estamos em dissonância.

Eu me pergunto o que nos leva a crer que podemos dar conta de todos os espaços, como um organismo autossuficiente, pensando (penando?) sermos onipresente e onipotente. Deve ser nosso complexo recalcado de Deus. Deve ser a carência por importância.

Que possamos nos unir mais em propósito, afinidades e talentos. O seu brilho não afeta o meu, e sim me inspira a ir além, a encontrar a porção de mim que também reluz. Juntando os dons, o mundo fica mais rico e criativo. Vira exponencial, termo que os futuristas têm me a ajudado a descobrir. É na dinâmica da colaboração que alcançamos crescimento muito mais amplo do que o esperado, talvez do sequer imaginado. Sabe quando a sincronia vai chegando na sua timeline? É o fluxo da conexão a pleno vapor.

E tudo isso passa pela confiança. Palavra com um sentido gigante e precioso. Passaporte para os atravessamentos, para as pontes que cruzamos por diferentes motivos e circunstâncias, principalmente nos momentos de transição. Confiança em mim, em você, no outro, na parceria, horando os acordos diários que vamos estabelecendo na vida. Respeitando o caminhar digno, que nem sempre é o mais fácil.

A ideia é que não economizemos elogios e aplausos nessa vida. Que possamos usar a diversidade do verbo colaborar a cada oportunidade. Ganhamos todos ao ajudar, contribuir, apoiar, auxiliar, assessorar, assistir, secundar, favorecer, cooperar, participar, coadjuvar, associar-se, envolver-se, atuar, compor, criar.

Que o seu melhor se junte ao meu, o meu ao seu e que, juntos, ofereçamos o melhor de nós ao mundo, sem moderação.

Texto originalmente escrito para a coluna quinzenal no Blog Repórter Entre Linhas.

Ocupando nosso lugar


“No meu lugar tenho força e a vida faz sentido”. Ouvi essa frase de uma conhecida do mundo holístico, quando falava sobre a caminhada espiritual. Lembrei-me das vezes em que senti a força interna brotando e as cores ao redor mais vibrantes. Eram momentos em que me percebia plena, realizando algo com sentido para mim. Devia estar com os pés no meu lugar, do qual falou a colega.

“Uma pessoa que encontrou seu lugar, ajuda outras que ainda estão tentando se encaixar a encontrarem. Dá segurança…”, explica o escritor Gustavo Tanaka. Devem ser justamente aquelas pessoas que nos inspiram com suas histórias, palavras, exemplos. Sabe quando há um brilho ao redor quando falam? Uma aura quase palpável? Elas aparecem e nosso cabelo do braço arrepia, dentro do peito cada palavra ressoa. As horas param enquanto o tal ser encaixado reluz como um norte em tempos sombrios.

“Se você não se sente realmente encaixado no seu lugar, você vai ser tomado pela inveja, vai querer o lugar do outro, vai sentir ciúmes e vai criar muitas guerras”, alerta o mestre espiritual Prem Baba. Mas afinal, que lugar é esse? Sobre o que estão falando ilustres e anônimos? Falam do espaço que é só nosso e ficará vazio até o ocuparmos. Avisam sobre aquele lugar que mais parece o sapato da Cinderela, feito sob medida para cada um de nós. E que, enquanto não habitado, o todo fica menor sem nossa participação genuína.

Penso que, para ocupar esse lugar, não podemos ir apenas com a roupa do corpo. Há que se levar a bagagem junto, com lenços e documentos, porque cada item guarda uma história a contar. Não surgimos do nada. Nossas cicatrizes revelam as batalhas pessoais, aqueles momentos em que pensamos que não íamos conseguir, nossos enganos. Doeu. Às vezes doeu muito. Há vezes em que procuramos esquecer. Mas vejo que, tão mais fundo enterramos essas feridas, tão mais longe estamos do nosso ser total, do nosso lugar.

Os mestres espirituais nos aconselham bravura. Dizem para abrirmos o peito e acolher nossa história, com tudo o que tem lá dentro. Um emaranhado de batalha e pó. Uma vida em alquimia, que está sempre evoluindo, embora não acreditemos. São enfáticos ao recomendar que não reneguemos o passado, mas honremos o ser que nos tornamos. Afinal, eu e você sabemos que houve um longo caminho para chegar até aqui. Nem sempre foi fácil.
Primeiro sobrevivemos aos nossos pais, e seguimos sobrevivendo aos outros e aos nossos próprios fantasmas. Porém, resgatar a força dessas lembranças, mesmo as doídas, faz nosso poder crescer. É o que sinto, é o que me dizem, é o que reparo.

O convite da amiga espiritual, de Gustavo Tanaka e do Prem Baba é o mesmo que eu me faço todos os dias. Como ajustar o binóculo para ver a abundância (onde imaginamos escassez)? Como ressignificar o peso das histórias, trazendo a sabedoria dos aprendizados?

É chegada a hora de sair da sobrevivência e ir além, porque queremos, porque merecemos mais. Sabe aquela bagagem recheada de histórias? Olhemos novamente. Entre calças e sapatos podem estar escondidas outras peças ali. São os talentos, os dons, as potencialidades. As vestes para uso sem moderação, que serão usadas no dia da posse. O dia de festa em que ocuparemos nosso verdadeiro lugar no mundo.

Texto originalmente escrito para a coluna quinzenal no Blog Repórter Entre Linhas.

Memórias à mesa

Recentemente li o livro “Escola dos Sabores”, de Erica Bauermeister. Ganhei de aniversário há pelo menos três anos. Estava ali, perdido na prateleira. Resgatei o presente sem pretensão, mas a história foi me inundando de lembranças.

A obra conta a trajetória de oito alunos que iniciam um curso de culinária no restaurante da protagonista Lilian. Uma mulher que, ainda criança, aprendeu a cozinhar como forma de resgatar a mãe depressiva devido à separação do marido. O amor pela culinária fez Lilian descobrir mais. A chef percebeu que a comida pode curar o emocional das pessoas. Para mim, a leitura acabou se transformando em um enredo cativante e um percurso pelos meus afetos.

Cada capítulo vai desvendando os caminhos dos personagens e trazendo receitas e memórias. É bem aí que a gente se flagra nas próprias recordações, aquelas que passam pelo estômago e impregnam o coração.

Fui levada aos períodos da infância, quando comi pela primeira vez pudim. Minha mãe abre a geladeira e diz “prova aqui”, oferecendo uma colher com um pedaço da iguaria. A memória vem doce, com um misto de estranheza infantil pela textura mole que derretia gelada na boca.

Sigo então para os bolos de Coca-Cola, receita que aprendi vendo minha mãe batendo a massa na forma que era da minha bisavó. Uma travessa azul de cerâmica bem pesada, com o fundo gasto pelas colheres de madeira. A mão girando ao misturar ovos, manteiga, farinha, sem saber ainda o que era uma batedeira. Cresci com bolo batidos à mão. Primeiro minha avó com seu Luís Felipe (o preferido dela), depois minha mãe e sua massa de Coca-Cola e, por fim, eu e os adorados bolos de chocolate.

Da infância lembro principalmente das receitas doces, do pavê com biscoito champanhe, do doce de mamão (inigualável) da Avó, do sorvete de abacate… E também dos períodos festivos.

No livro, os alunos aprendem a saborear o significado do Dia de Ação de Graças, cozinhando lentamente os pratos. Lá em casa, recordo os inúmeros natais, nos quais a ceia da meia noite era preparada durante todo o dia 24 de dezembro. O peru, que gastava quase um botijão de gás esperando o termômetro pular para fora ao indicar o fim do cozimento; a farofa temperada com os miúdos da ave; o arroz branco soltinho decorado com passas e ervilha; a salada de batatas, cenoura, azeitona e maionese. E a sobremesa? Parecia obra de arte! Um mosaico de gelatinas multicores, cortadas em pequenos cubinhos e misturadas com leite condensado. Coisa de artista, coisa de minha mãe.

Seguindo na leitura, surge uma memória especial. A feitura do café da tarde! Uma cena que ainda parece poesia para mim, na minha casa e nos lares que visito. Todo santo dia, no meio de tarde, vejo minha avó encostada na pia, a fumaça subindo enquanto coava o café no pano. O cheiro inundando a cozinha, a casa, a alma. É de uma beleza singela que só os amantes do café conseguem dimensionar. É atemporal.

Olhando assim, nossa vida passa mesmo pelas memórias do estômago, essa escola de sabores e afetos. Cresci com minha avó colocando a mesa para comermos juntas, mesmo que só eu e ela, às vezes nós duas e meu primo, outras com alguma visita. Considero ainda mágico o ato de pôr a mesa, dedicando tempo para uma refeição conjunta. Um hábito que tem escasseado. Uma pena…

O tempo moderno deixou as refeições mais rápidas, automáticas e, muitas vezes, solitárias. Comemos resolvendo problemas, engolimos enquanto trabalhamos, damos uma garfada de olho no relógio. Nem lembramos mais do cardápio, das histórias que vêm junto com a preparação dos pratos. Se antes colecionávamos histórias, hoje nos falta memórias à mesa.

Por isso, defendo que, pelo menos uma vez ao mês, tenhamos aquele tempinho para uma mesa posta, para conversa jogada fora e talheres dispostos sem pressa. Uma mesa de café, almoço, ou ainda um simples jantar com sopa. Ah, sopa! Outra boa recordação…

É na mesa que mastigamos as histórias que cabem no peito, dividimos nossas memórias e bebemos o sumo de uma vida simples e preciosa.

Texto originalmente escrito para a coluna quinzenal no Blog Repórter Entre Linhas.

Parece pesadelo

Em tempos de violências simbólicas e reais, e outras inúmeras com siglas infinitas, sobretudo em relação às mulheres, cada iniciativa pode se tornar um ato de rompimento com essa loucura da vida real. Escrever é necessário.

Na última semana, povoou os noticiários o caso do auxiliar de serviços gerais com 17 passagens pela polícia por violência contra mulheres em São Paulo. O episódio tem gerado manifestações as mais diversas nas redes sociais.

Questionam a posição do juiz, que liberou o acusado da ocorrência anterior por acreditar que “não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça”. Solto, o homem cometeu nova agressão. Segue preso, assim como presas estão as dores das das mulheres. Comentários masculinos nas postagens das notícias sobre o caso acaloram as discussões. Mulheres protestam sobre a falta de respeito e segurança. Ninguém se entende e a penúltima vítima se pergunta: “mas meu corto é o que?”.

Tem faltado empatia entre nós, seres. Tem faltado muita coisa.

Quantas violências são necessárias para legitimar a dor de quem sofre? Seja daquele que passou por agressão, seja daquele que se dói por dentro, mesmo “sem” os motivos aparentes por fora. Quantas mortes precisam ocorrer para entendermos a selvageria para a qual estamos caminhando? Quantos mais de nós, nossos conhecidos, nossos desconhecidos, precisam ser violados para nos indignarmos? Quanto mais corrupção precisa existir para usurpar o resto de esperança que escapa? Morremos um pouco a cada dia pela violência que nos chega, porque ela sempre nos alcança.

Dá vontade, às vezes, de resetar o mundo, o jogo, nós bonecos. Por que é cansativo valer-se da dose diária de fôlego para chegar ao fim do dia em pé. É exaustivo usar as inúmeras vidas acumuladas para resistir, como nas lutas dos joguetes virtuais onde se ganha pontos por eliminar os outros.

É fatigante explicar que em nosso corpo não há direito de terceiros – SIMPLESMENTE NÃO HÁ – que o outro não pode tirar a vida de alguém – NÃO, NÃO PODE – que a dor pede escuta – ME OUVE – que a miséria exaspera e não é uma condição humana – NUNCA SERÁ.

Nessa matriz congestionada de violência, parecemos seres de ficção, acoplados a tubos de oxigênio invocados a cada falta de ar, nas cenas absurdas de involução humana. Parece que o pouco que fazemos não é mais o suficiente e que são precisos os tais super heróis para resolverem esse efeito dominó em que nos metemos.

Parece que é sonho. Mais da metade pesadelo, daqueles que a gente grita e a voz não sai, que a gente corre e não se move do lugar, quando de repente somos pegos desprevenidos, nus, e todos riem de nós.

Vergonha alheia, vergonha minha, vergonha de quem tem vergonha na cara em olhar para esse mundo de ponta cabeça. Injúria! Perjúrio? Queria eu. Parece mesmo pesadelo.

Queria um texto de alegria, de esperança. Por agora sai um texto triste, de respiro à procura de sobreviver a nós, mundo.

A cada amanhecer, levanto me dizendo que dias melhores virão. Parece sonho, metade ainda pesadelo, metade espera.


Texto originalmente escrito para a coluna quinzenal do Blog Repórter Entre Linhas.