quarta-feira, 5 de julho de 2017

Como amar?


Poderia falar sobre escrever cartas apaixonadas, poemas, mensagens, ou sobre o medo de se declarar para a outra pessoa. Quem sabe seja melhor recuar, já que pode não haver correspondência do outro lado. Não. Talvez valha a pena arriscar, a espera dói mais do que permanecer na dúvida. De repente, tudo vai ficando em segundo plano, enquanto ouço um refrão na timeline do facebook. “Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”.

Eu, que só conhecia Johnny Hooker de nome, fiquei absorta em “Flutua”. A música foi apresentada durante o programa de entrevistas do jornalista Pedro Bial. Flutuei em pensamentos. Ouvi duas, três, quatro vezes. Ouvirei mais. A melodia lembra estranhamente tempos que não vivi, sentimentos de uma revolução, toques de nostalgia. Entre as belas frases, importa tanto o fato de “ninguém vai poder querer nos dizer como amar”.

Eu não sei o que é certo para você, o que te faz feliz, tampouco você sabe sobre mim. Mas por que insistimos em conselhos que não foram pedidos? Quantas vezes ao dia, poderíamos recolher nossa fala, nosso “eu acho”, “você deveria”, “ele tem que”, e permitir a curiosidade de assistir ao capítulo seguinte de uma vida sem roteiros. “Meu amor, seja feliz”, como dizem muitos vídeos por aí. Seja feliz, que o outro também será, tateando os caminhos dele.

Ouvindo “Flutua”, algumas cenas acabam surgindo na mente. Vejo pessoas gritando sobre o que é certo, errado, esperado, adequado, ado, ado, ado. Observo dedos de desconhecidos apontando “verdades” entre si. É uma passeata? Um protesto? Não sei ao certo, mas parecem imagens cotidianas das vidas cruzadas. A razão parece virar abelha, ora zunindo no ouvido de um, ora no ouvido de outro. Na algazarra, todos querendo ter razão, dizer como amar, mas amar da maneira “certa”, porque deve existir “a fórmula do amor”, como queria Léo Jaime.

Mas “Um novo tempo há de vencer para que a gente possa florescer, e a gente possa amar sem temer.”, alerta Hooker. Que novo tempo é esse? Eu me questiono. Parece algo ainda tão distante, quando nos perdermos em traçar uma linha reta para a vida do outro, embora a nossa seja cheia de abismos e colinas. Quando o amor, algo tão genuíno e transformador, murcha em formas de papel untadas com sangue e óleo. Amar sem temer ainda flutua, às vezes, não raro, evapora.

Por que nos incomodamos tanto com a parede do vizinho, seus brindes e dedicatórias, se podemos ser felizes com a diversidade de uma pontuação sem vírgulas? Algo estremece por dentro quando vejo o outro esbravejar certezas de Deus. Um Deus que não é meu, não é seu, é de todos. Eu permaneço sem entender o mal que há em ver o outro ser feliz, amar do próprio jeito.

Um novo tempo há de vencer, Hooker. Creio que sim. Quando? Espero que não demore. Há pressa em ser feliz. Há urgência em amar. Precisamos. O mundo pede. Os seres, também.

Por hoje, fico o tempo do meu dia pensando sobre minha forma de amar sem medo, desajeitada. Às vezes, esqueço o quanto o outro está ali por escolha e o quanto não sou imortal, apesar de o amor ainda ser.


Texto escrito para a coluna quinzenal do blog Repórter Entre Linhas.

sábado, 20 de maio de 2017

Indo além da dualidade



Nascemos da unidade - o amor - e caímos na dualidade na nossa primeira grande mudança – o nascimento. O embate entre vida e morte assim que viemos ao mundo cria nossa primeira cisão, o momento decisivo pela vida. O sentimento de completude que vivíamos no útero não mais se reproduz. Lá dentro tudo era protegido, seguro, estávamos numa redoma, apesar de já captarmos o ambiente ao redor. Na vida, buscamos repetir essa perfeição.

Aqui fora, encontramos um mundo polarizado. Nossas percepções, principalmente com a crise que atravessamos, têm nos levado à dualidade. Hoje é tudo ou nada, bom ou ruim, certo ou errado, verdade ou mentira, culpado ou inocente, mocinho ou bandido. Temos nos distanciado do caminho do meio e da perspectiva de que estamos todos juntos no mesmo barco.

Os julgamentos vão fazendo parte inerente da nossa rotina, acompanhados de sensações de perda ou ganho. No automático classificamos situações, pessoas e objetos com rótulos definitivos que nos aproximam ou afastam. Aqui fora a visão parece estar turva, nossa temperança também.

Os ânimos aflorados nos levam a condenações sumárias e separações. Como ascender em meio a tantas decepções? Como nos acalmar por dentro se por fora está um caos? Como ir além da dualidade?

Essa semana, ouvi uma palestra com o jornalista André Trigueiro, na qual ele falava sobre transição planetária, momento que a Terra e nós humanos estamos atravessando para separar o joio do trigo nesta crise ética, moral e de relacionamentos. Uma crise sistêmica, global. Segundo ele, é como se tomássemos um vermífugo forte, amargo, mas que vai nos curar. Trigueiro destaca que durante essa transição é preciso persistir no caminho do bem, renovar todos os dias a nossa fé, selecionando o que vemos, ouvimos, comemos, e também as pessoas com quem queremos estar.

Talvez não estejamos mais aqui para ver a solução, diz o jornalista, pode demorar muito, embora já esteja acontecendo. Mas vale fazer a parte que nos cabe no tempo que dispomos na terra. “A vida é movimento, ação incessante o tempo todo. A hora é de assumir quem você é no tabuleiro e verificar se onde você está está bom. Se não, ainda dá tempo de movimentar sua peça no jogo.”, adverte.

As palavras de Trigueiro me levaram até minha Avó materna, base da minha educação. Ela me ensinou, na sua simplicidade e olhar firme, lições básicas que me acompanham ao longo das escolhas diárias. Conselhos nem sempre verbalizados, mas observados por mim como algo natural do ser humano. “O que não for seu, devolva”; “o que dever, pague”, “respeite os mais velhos”, “não dê cabimento a fofoca”, “isso não está certo minha filha”, “fale a verdade”, “não importa o que o outro fez, eu quero saber é de você, diga”.

Sabedoria de Vó parece milagre, acalma o coração dividido. Traz aquele sentimento de estar dentro do útero, protegida por mãos idosas e justas. Quando criança, se eu pensava em dar um jeitinho em alguma situação, vinha logo a voz na minha cabeça alertando - “minha Vó disse para não fazer isso”; “minha Vó disse que isso era errado”. Deve ser coisa de criança, mas ainda tenho esses pensamentos quando vejo os noticiários, quando observo o trânsito, quando quero dar desculpas para me enganar.

Às vezes eu penso que essa bagunça toda aqui fora do útero não tem mais jeito, é perda, traição, fim. Mas escuto André Trigueiro e ganho esperança. É perdão e recomeço. Oscilo mais um pouco vendo as notícias em todos os veículos falando sobre mentira, propina e um monte de palavrão. É tristeza e nervosismo.

Os movimentos pendulares cansam. Parece que estamos sempre arrumando uma bagunça, lembrando-se do básico da vida - ser inteiro e amoroso.

Volto à infância, para a rede embalada pela Vó. O coração tranquiliza, me vejo amassando seu cotovelo (mania de criança), alisando o braço dela geladinho e a escuto dizer “tenha paciência minha filha”.

Texto originalmente escrito para minha coluna quinzenal no Blog Repórter Entre Linhas. 


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Fotografias

Fui procurar umas fotos da infância para homenagem ao Dia das Mães e encontro várias fases da vida estampada em cor. Percebo que só tenho um álbum de criança com uma fotinha do batizado com meus avós, três de um aniversário no qual adorava a mesa decorada com guloseimas e duas de meus pais juntos me segurando no colo (raridade para se guardar no cofre). Mais umas quatro de quando bebê, as quais estranhamente parecem não ser eu.

Fotografias são as memórias do peito guardadas no papel. Quando a gente se vê refletido é um disparate. Voltam no tempo os sentimentos da época, nosso modelito desatualizado, o corte de cabelo rebelde, os programas com amigos, algumas dores e amores. Volta a fita dos problemas tão grandes vividos ali (com a nossa dimensão juvenil) e as inúmeras preocupações de uma vida adolescente.

Fico curiosa para saber quais os pensamentos naquele exato momento da foto. O que sentiam todos os registrados, o que tentavam conquistar e o que esperavam da vida. Como um corte no tempo, a gente vira mosca e relembra as cenas, imagina os porquês e se perde em devaneios.

Além da nostalgia das fotos antigas, em geral se tem a ideia de que estamos melhores, mais maduros, mais bonitos, mais vividos. Dá certo conforto sentir que a vida anda para frente, mesmo nos momentos em que teimamos usar a marcha a ré. Evoluímos todos, somente a estátua é que se deteriora.  E não temos essa vocação, porque nascemos do movimento e seguimos assim, embora os ponteiros às vezes pareçam enferrujar.

As fotos de antigamente trazem o ineditismo, outros ângulos, espontaneidade e sorriso mais livre de quando só tínhamos direito a algumas poses. Registravam as emoções, mais do que pessoas olhando para a câmera. Não era preciso perfeição nem o melhor perfil. O sentimento estava nos dois lados.

Eram momentos genuínos da festa de criança, com lembrancinhas nos copos plásticos que viravam coelhos, cestinhas e o que mais a habilidade da nossa mãe permitisse. Era uma mão não se sabe de quem cortando a foto. E seres desconhecidos. “Sabe quem é esse aqui? Não, e você? Também não. Deve ser fulano. Não, é sicrano. Ah sim, é o filho da comadre Chica!”

Na foto, aquela mãe também não é a mesma de hoje. O sorriso e olhar ingênuos completavam a calça boca de sino, os móveis dos anos 1970 e o calendário na parede. Os sonhos de ontem são tão diferentes dos de hoje. Assim também a criança de vestidinho bordado, casinha de abelha, agora em outras vestes.

Do álbum de infância para 2017 correu um rio, vazou um mar. Hoje são outros doces, novas alegrias e mais desafios. A mãe foi, a Vó também. A mãe voltou, como nos laços de presentes que refazemos par ficar mais enfeitado. Essa história de olhar álbuns dá nisso, a gente se revisita e se reinventa.



sexta-feira, 5 de maio de 2017

Uma Fala Carpinejar


Uma noite refrescante. Ouvir o escritor gaúcho, Fabricio Carpinejar, conversar sobre como ser “feliz por pouco e transbordando por muito, como ser feliz criativamente”, nos lembra do tempo para o afeto, do abraço sentido, do contato honesto com o outro.

Carpinejar, que uniu os sobrenomes da mãe (Carpi) e do pai (Nejar) para se fazer inteiro, para aproximar os pais em seu imaginário afetivo, diz que só foi ser poeta para buscar o pai. “A poesia é uma longa carta que eu escrevi para ele”.

Ele bem alerta, “a gente só se resolve quando fica em paz com os pais”. O escritor das palavras descreve os impasses do coração e adverte que o grande problema da felicidade é que a gente sempre acha que o outro pode ser melhor do que ele realmente é. “A gente cobra do outro uma perfeição”, quando nós mesmos estamos longe disso.

A felicidade passa, portanto, pela paz com o passado, com nossas raízes, nossa história. Se olharmos bem, dá até para perceber pedacinhos de nós fincados no corpo dos sete anos, no muro da nossa casa da adolescência, nas conversas das madrugadas com amigos, nas memórias com o “ex”. Ficamos por lá?

Para ser feliz criativamente, anuncia o poeta, é preciso sair de si, do egocentrismo e observar o outro. Alimentar a curiosidade e se reinventar a cada dia em novas linguagens.

Em tempos virtuais, Carpinejar contesta a criatividade desperdiçada ao se odiar tanto o outro, “criamos todo tipo de insulto, mas no elogiar somos reticentes. Para destruir alguém usamos todas nossas reservas ideológicas”. Porém, nossa real dificuldade está em encarar os próprios defeitos, na tentativa de esconder nosso monstro interior.

“O quanto nós fazemos no dia somente para provocar?”, questiona. E o pensamento vaga por aquelas pequenas discordâncias diárias, que nem sempre deixamos passar pela irresistível vontade de ter razão, em tudo. Mas a felicidade não mora na razão. E sabiamente o poeta recorda, “com o tempo eu percebi o que é ter razão se tu pode ter amor.”

O homem que escreve para destruir janelas, de fala emotiva, ora aos gritos, ora baixinho, comove. Sensibiliza pelas frases simples, qual conselho de amigos, mas firmes como os relâmpagos rasgando o céu. Ele nos convida a falar com o coração, pois sinceridade não é reproduzir o que vem à cabeça, mas conciliar os dois tempos – o da fala e o do coração – porque o outro pode não estar preparado para ouvir o que você tem a dizer.

A fala Carpinejar nos leva a parar, a sentir, a recuperar a felicidade pelas coisas simples, a não dar nada por garantido, mas a aproveitar o tempo presente para dizer o quanto amamos. “Porque o mais difícil na vida não é se reinventar, é se assumir.”


Texto originalmente escrito para minha coluna quinzenal no blog Repórter Entre Linhas. 

Eu te Abraço


Amiga-irmã, hoje sou eu quem seguro a tua mão, na mudança de papeis que a vida nos encoraja a experimentar, sem ensaios. Lembro-me de quando, há dez anos, você fazia o mesmo por mim, enquanto eu me despedaçava por dentro ao ver minha amada Vó partindo. Hoje é você quem se despede do seu amado Pai, hoje nos tornamos mais cúmplices. Eu te sinto e te entendo. Eu te abraço como as almas que se aproximam sem nada dizer.

Fico emocionada ao saber que, assim como eu, embora para poucos, você tenha tido a oportunidade de estar ao lado dele, segurando a mão nos suspiros finais, na "hora sagrada" como você mesma nomeou, que é o momento da travessia. Você pode sentir o silêncio, o tempo parar, enquanto os anjos diziam amém e levavam seu Pai nos braços encantados da luz.

É revelador e há uma beleza na hora derradeira. Para quem tem a oportunidade de vivenciar essa passagem, ficará para sempre como um momento mágico, apesar de toda dor, mesmo com tanta saudade. Haverá gratidão pelo tempo dado, pelo tempo vivido, pelo que pode ser. Todos deveriam ter esse direito, ter a benção de viver o instante final ao lado dos queridos, de poder dizer com tanto amor: "siga em paz".

Com a partida do seu Pai, revivi os meus adeus, os concretos e os imaginários, e pude perceber os adeus simbólicos nos olhos dos outros, refletindo as próprias despedidas, muitas ainda não realizadas. A sua dor nos perpassa e nos soma à dor global da separação, que nos torna tão humanos, tão finitos em corpo de gente.

Caminhando ao seu lado, abraçando seu corpo tão fragilizado naquele momento ritualístico, sinto sua emoção e me torno una com seu movimento, torcendo para que você atravesse sem tanto pesar. Queria poder tirar alguma carga dos seus ombros. Queria, tentei.

Fico angustiada pela hora do “baixar o caixão”, aquela etapa em que nosso corpo vacila com o derradeiro adeus à materialidade. Depois, só lembranças. Boas lembranças, decerto. Porque o amor suplanta as tribulações dos momentos finais e parece resumir os desafios naquele grande sentimento inenarrável que liga as almas em essência. O Amor.

Nas últimas flores brancas jogadas, pude notar como caíam sobre o homem que cobria de cimento o espaço retangular. Uma chuva de pétalas, de votos lançados por sobre o outro, que ali estava junto ao teu, para guardar, para eternizar. Não sei quantas flores o homem de verde recebeu naquele dia. Sei que aquelas das 14h30 tinham o orvalho do dever cumprido, do "jamais retroceda", do "seja bem sucedida", como seu amado costumava profetizar.

Voltar para casa é duro, eu sei. Encarar o vazio das horas miúdas, do quarto que exala um cheiro de saudade. Não há atalho para atravessar este mar. Queria te levar comigo para passear, para ver a vida que chama lá fora, agora que é livre para novas escolhas.

A coruja pintada em teu corpo deve te guiar nessa jornada de aventuras, que com certeza te espera nesse recomeço. Que as borboletas soprem no teu estômago, lembrando de que sempre é tempo de "sol-te", como está escrito em teu braço. Solte o que já não te serve mais e sejas feliz!

Que o dente de leão sopre tua sorte para campos infinitos de descobertas gentis, aquelas possíveis nas almas de criança. Eu te abraço e digo que estou aqui, porque é isso que os amigos fazem. A cada crescer de asas, permanecem.

Texto originalmente escrito para o blog da professora Dalu Menezes.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Não existem vidas comuns

“A grande pergunta que move minha vida é perceber como cada um inventa uma vida. Não existem vidas comuns, nossos olhos é que são domesticados.”. Com a fala mansa, pausada, reflexiva, Eliane Brum foi habitando todos os presentes no auditório da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará. Uma palestra despretensiosa de segunda-feira sobre como “toda pessoa constrói uma versão da história a ser contada”. Ouvi-la aguçou os sentidos e abriu a alma.

Jornalista, escritora premiada e uma profissional de sensibilidade peculiar, Eliane Brum foi ainda mais surpreendente ao vivo. Enquanto discorria sobre sua vida e profissão, tinha uma fala doce, frágil, que emocionava a plateia. Às vezes parecia que aquela mulher de vestes pretas ia quebrar, se partir em histórias miúdas com vários protagonistas. Mas Eliane era firme e seu relato preenchia a sala de atenção e tensão, como aquelas vozes inebriantes que às vezes colocamos para ouvir antes de dormir.

Parecia haver floquinhos voando no ar, pude ver, enquanto todos prendiam a respiração para não perder um momento sequer, diante de um silêncio perturbador, diante da vida comum, “a vida que ninguém vê”. O público se repartia por dentro para alcançar aquela imensidão de relato.

Também impactado, o jornalista, escritor e um dos curadores da Bienal, Lira Neto, mediava uma palestra que pareceu voar. Duas horas com ponteiros de vinte minutos. A vastidão de Eliane extrapolava. “Eliane, você sabe que está nos emocionando, não é?”, perguntava Lira.

A escutadeira curiosa, como ela mesma se definiu, se disse habitada pelas diversas vozes das pessoas que se abrem para contar suas histórias, a cada vez que busca descobrir qual a delicadeza que torna a vida possível, mesmo com tanta violência ao redor.

“As palavras têm um espaço vital na minha vida. Escrevo para não matar, escrevo para não morrer.”, contou a autora explicando que não escreve para apaziguar ou encontrar respostas, mas para desacomodar. E o primeiro movimento passa por se desacomodar, despir-se de si, desabitar-se para ser habitado pelo outro. Ir o mais desabitado para vestir esse outro jeito de ser e estar no mundo, e só depois empreender o caminho de volta. Um processo que se faz essencialmente pela escuta, destacou ela.

Um caminho perigoso, arriscado, esse tal encontro com o outro. Não há garantias do que vamos descobrir do lado de lá. Enquanto todos buscam certezas, Eliane fala em incômodo, em dúvidas. É perturbador.

A escutadeira da vida que ninguém vê nos chamava para o olhar da delicadeza. Falou de morte, de tempo, do vazio, de cicatrizes e dos Brasis que ainda esperam por ser contados. Revelou sobre impotências, e sobre os momentos de estanque no seu processo de escrita, período em que procurava conexão entre os fatos observados e o que fazia sentido ser narrado. “Escrever é o possível, não é pouco nem é muito, é o possível.”

Suas palavras me chegam, me alcançam, me embalam e acordam. Tenho tentado “desdomesticar” os olhos, os sentidos, e me abrir para as histórias das vidas invisíveis, que nunca são comuns. Desconstruir é necessário, é trabalhoso, mas “não tem nada mais brutal do que estar à margem da narrativa, ser invisível.”, nos ensinou a escritora, que entra gentilmente no universo do outro enquanto pede para as pessoas mostrarem o próprio mundo. “Me conta...”, é seu ponto de partida.

Eliane é contundente e de um falar poético. Suas frases se encaixam com um lirismo que nos faz imaginar quanta vivência cabe ali. Ela viu gente, abandono, dor, vazio, viu “desacontecimentos”, como tantos de nós. Porém, sua narrativa é resistência em uma época de imediatismo, julgamentos sumários e ódios virtuais. Ela resgata o olhar do observador, que dá tempo para a vida se revelar, sem pressupor as respostas, sem prescindir da atenção.

Eliane nos lembra de que não há vida banal, há vida, há desassossego. Testemunhas, personagens, narradores, somos partes do mesmo mosaico que se forma enquanto tentamos justificar a existência, diante de dias caóticos e pulsantes.

Texto originalmente escrito para minha coluna quinzenal no Blog Repórter Entre Linhas.




quarta-feira, 5 de abril de 2017

Destemperados


Manhã de uma terça-feira. Três horas de espera na fila do banco e as reclamações começam.

- Estou aqui desde dez horas, isso é um absurdo! - protesta um.

- É assim que vocês tratam os correntistas de vocês?! – questiona indignado um homem alto.

- Senhor, falta muito para minha senha? Estou passando mal de fome. Cheguei muito cedo e nada de eu ser chamada! - desabafa uma senhora junto ao gerente.

- Que prioridade é essa que a gente fica esperando sem fim?! – reivindica uma idosa.

E o coro vai aumentando, até que um senhor levanta e brada a plenos pulmões:

- Isso é um desrespeito!! Vocês saem para comer, mas a gente fica aqui feito besta! Duvido que o senhor gerente fique sem almoçar! Mas a gente não vale nada!

Os demais, que também esperam, aplaudem, balbuciam as próprias queixas e, após segundos, vão se calando. O gerente responde:

- Senhor, somos só nós três atendendo. Não tem mais funcionários e dez mil se aposentaram. É o jeito esperar a sua vez.

Minutos depois, o gerente sussurra para uma funcionária:

- Viu aquele senhor gritando? Como sempre, é um devedor. Depois pede ao fulano para olhar o caso dele.

Ao meu lado, uma mulher cisma com um suposto casal enquanto o homem, que carrega uma criança no colo, vai pedir informação ao funcionário:

– Olha! Ele traz a criança para ter prioridade na fila. Aquela ali deve ser a mulher dele!

Uma desconhecida participa da conversa no ar:

- Tenho certeza que ela podia ter ficado em casa! Pra que saíram os dois sem necessidade?! São muito é sabido.

Uma manhã e tarde olhando para senhas piscando no visor e a sensação de total impotência e desperdício de tempo. Assim foi minha última ida ao banco.

Desde pequena, não sou afeita nem a instituições bancárias tampouco a dirigir no centro da cidade. Quando tenho um compromisso assim, sinto que aquele será um dia difícil de atravessar. Meu pai, tempos atrás, confessou ter o mesmo sintoma. Sendo genética ou não, o fato é que sempre tive pesadelos nas idas ao banco.

Primeiro fico em constante alerta por medo de assalto. Olho o movimento dos guardas, a porta giratória barrando alguém. Imagine, ser refém naquela manhã chuvosa, quando você ainda tem muito o que fazer?! Se der azar e os clientes tiverem que tirar a roupa?! Meu Deus, passar a temível vergonha das peças íntimas descombinadas. Terror para um imaginário fértil.

Depois, tenho a impressão de que as idas ao banco são pura perda de tempo, quando não se consegue resolver as pendências pela internet, telefone ou caixas automáticos. No meu caso, o cadastro voltou aos dados antigos, por inexplicável vontade do sistema, emperrando operações futuras. O gerente, não resolvendo o problema, pede que eu ligue para o autoatendimento. Então, por que me mandaram à agência?! “É o sistema, não posso fazer nada.”, explica o gerente.

Além disso, não raro, as informações entre agências do mesmo banco também diferem e você se pergunta onde está o treinamento? Mas isso é bobagem, seu tempo é barato e a gasolina também. Numa hipótese mais animadora, você ainda ganha o direito a contracenar no espetáculo de teatro amador, desses de uma terça-feira comum.

Pause. Você se imagina protagonista da cena, batendo o telefone do gerente com toda a força, joga uma pilha de papéis no chão, sobe na cadeira e convoca os demais para um motim. Quadro típico de “Um Dia de Fúria”.

Play! Você se dá conta do quanto deve ser estressante trabalhar em banco e ter que ouvir todo dia aquela ladainha de clientes reclamando de filas com mais de três horas, e ainda ter o atendimento sempre interrompido. "Pode me dar só uma informação, por favor?!"

Pause. Você olha ao redor e nada naquele ambiente parece estar feliz, nem clientes, nem funcionários, nem o guarda, nem a moça que presta informação na entrada do banco e conversa tranquilamente com uma segunda funcionária, sem se importar com as pessoas na filando esperando a triagem inicial das senhas.

Play. Você sai do banco sem resolver sua questão e pensa em como o dia foi arrastado. Torce para que amanhã não tenha que voltar à agência e reviver as cenas de uma novela que não vale a pena ver de novo.

Talvez o rapaz que vende milho cozido na saída do banco tenha tido mais sorte e fature algum com a espera alheia, ou o flanelinha receba uns trocados, se tiver paciência em aguardar sua volta após um expediente de cinco horas. Difícil deve ser para a loja de flores ao lado, vender bombons, pétalas e romantismo para os que saem destemperados das filas de banco.


Texto escrito para minha coluna quinzenal no Blog Repórter Entre Linhas.